Cuidar da escrita
#37
Oiê,
Pra quem escrevo aqui?
Será que é pra você ou será que é pra mim?
Devo pedir desculpas pela longa ausência entre o último texto e este? Ou será que, sendo pra mim que escrevo, não preciso me desculpar comigo? A gente não precisa se desculpar consigo? Tenho minhas dúvidas.
Quem me escuta por aí já deve ter me ouvido dizer (e provavelmente já escrevi aqui mais de uma vez nessas newsletters) do quanto me ocupo de não perder minha escrita. Eu não sei bem o que digo quando digo isso. Mas a sensação é a seguinte: de que minha escrita é um bichinho frágil, que se me distraio muito dela, se me descuido muito dela, se confio demasiadamente em sua capacidade de sobrevivência... puft, ela corre o sério risco de desaparecer para mim. Mas como se cuida da escrita, Ana? A regamos (não confundir com arregamos, por favor, é exatamente o oposto), a ninamos, a alimentamos, a banhamos, a amamos? Pois não, penso que cuidar da escrita é manter limpo o jardim que liga a estrada onde a gente se liga com a gente mesmo lá onde a gente não é tão mesmo.
Dito de outro modo, é sendo honesta comigo mesma que cultivo minha escrita. Mas, diferente do que a galera das autoajudas-coachescas nos dizem, para sermos honestos conosco não basta apenas se esforçar por sermos nós mesmas (afinal, como se faz isso?) e nem decidir que seremos autênticas. Ser honesto consigo mesmo passa por uma delicadeza de cálculo que se dá considerando uma porção de não precisar ser amada e duas porções de gentilezas.
Para ser bem clara: para sermos honestos com a gente, precisamos não estarmos naquele momento dependendo do amor do outro (nada nos deixa menos a gente mesmo do que estar à mercê do amor do outro) e, ao mesmo tempo, precisamos exercitar a gentileza.
Vou tentar explicar a primeira parte: o que seria não depender do amor do outro naquele momento? Seria estar iludido o suficiente para achar que não dependemos do amor de alguém e ao mesmo tempo estarmos fortalecidos o suficiente para que essa ilusão não seja mentirosa. Desculpem se eu compliquei, mas não sei dizer melhor, acho que vale você ler de novo, mesmo.
Vou tentar explicar a segunda parte: essa coisa da gentileza, eu não sei bem como explicar muito sem cair num papo cabeçudo. Pensei em pesquisar a etimologia da palavra gentileza e ver se a uso adequadamente, mas queria contar aqui apenas com o que a gente entende do senso-comum mesmo: gentileza é quando a gente faz algo pelo prazer de fazer. Não é pra ganhar algo em troca, embora a gente possa aceitar, sim, se algo vier em troca, mas gentileza é um negócio que não gera dívida. O ato de fazer é o próprio pagamento.
Juntando as duas coisas: a escrita é o lugar em mim onde me acesso, a isso chamo de honestidade comigo mesma. Esse caminho é um combo de um poder suportar a solidão de me ser (o que chamei por não precisar tanto do amor do outro naquele momento) e gentileza (com quem? Não sei, comigo, com o outro, com o mundo).
Dito isso, agora, sim, acho que posso me desculpar contigo, leitor/a, que não me lê há mais de mês. Mas não preciso me desculpar comigo (que me leio também aqui), porque não vim dividir aqui minha escrita com vocês porque estava dedicada a escrever o que eu espero que se torne um livro novo! Nesse momento estou aguardando a leitura dos editores, que estão sendo meus primeiros leitores. Sou uma escritora meio rabugenta, meio excessivamente influenciável e não costumo pedir opinião sobre o que escrevo. Tenho medo de mudar meu rumo na escrita e escrever o que queriam que eu escrevesse e não o que eu queria escrever. Na verdade, escrever é uma coisa que me faz precisar escrever o que eu queria escrever até achar o texto que precisaria ser escrito – que, aí sim, é o que costuma prestar pra alguma coisinha.
Espero voltar em breve.
Obrigada por suportarem minha ausência.
Beijos.



Que tal você lançar um grupo/curso de escrita(s)….?!
Te entendo em todas as tuas palavras! Que teu escrever continue vivo, e que cuides do jardim das palavras porque o que cultivas é muito lindo. Obrigada ❤️