Eu queria escrever um texto que desconfio que não quer ser escrito.
Há dias começo algo que não vai para lugar algum. E os textos que escrevo aqui têm vida própria, gosto disso. Porque os textos que publico aqui não partem de demanda alguma, a não ser do meu desejo. Gosto muito disso. Tem assinantes dessa newsletter que até decidem apoiá-la e pagam algum dinheiro por ela, mas o combinado aqui é que o meu único compromisso é com a escrita. Não tem brinde, não tem texto extra, não tem cashback, feedback ou sei lá o que. Quem sabe tenha algum dia...mas por enquanto segue sendo meu “puxadinho” de liberdade. (E eu me lisonjeio muito com o apoio.)
Só que eis que quando a gente tem notícias dessa menina arteira, a liberdade, não sabemos muito bem o que fazer com ela.
A cada vez que venho escrever algo para essa news me sinto como na escola, quando eu sentia que não tinha feito nada nas férias, e tinha que escrever uma redação sobre elas no retorno às aulas. Ou quando, diante de uma folha em branco, me deparava com a consigna “desenho livre”.
É engraçado que eu criei esse espaço aqui justamente para que eu escrevesse quando quisesse, como quisesse, se eu quisesse, para quem quisesse ler aquilo que eu quisesse escrever, e o enquadre, apesar de tão bonito, de tão cuidadoso, não garante que a escrita chegue. Até de texto falado eu já fui na última edição da news (obrigada, pessoal, por todas as mensagens de retorno, adorei que tenham gostado), mas o texto escrito mesmo, fuén. Se bem que parece que algo está sendo escrito. Sigamos.
Há textos que chegam prontos para mim. É uma ideia que me ocorre, de supetão e, tudo o que escrevo é para explicá-la, para dizer como cheguei até ela, para dizê-la melhor dizendo de outras formas. Acho que com meu livro amarelinho foi assim. O título “A gente mira no amor e acerta na solidão” é uma espécie de spoiler do livro e depois, o conteúdo todo do livro, é para dizer como cheguei a esse título-síntese.
Já nessa news, quase todos os textos dela, surgem do ato de escrever. Mas depende do dia. Às vezes tem vontade de escrever e não tem texto e às vezes tem um começo de texto que se revela frágil para que eu siga escrevendo e só bem de vez em quando tenho pulso o suficiente para escrever um texto que eu entenda que faz sentido compartilhar com vocês.
Estou surpresa, depois de semanas diante de textos sem força (ou escritora sem força?), sigo escrevendo! Qual será o musculinho da minha alma que às vezes acorda e às vezes dorme? Será que existe um viagra, um tadalafila da alma para que eu garanta a minha escrita? Talvez um psiquiatra pudesse me receitar algo assim, quem sabe um derivado de ritalina ou um negócio parecido...conheço muita gente que se provoca assim para escrever. Mas para mim, escrever à força seria roubar no (meu) jogo. Se fizesse isso, poderia acessar uma escrita, mas essa não seria a minha escrita. E a minha escrita, essa preciosa, que eu fico fazendo malabarismos para não perder, é exigente e caprichosa. Quanto esforço para ser “si mesma”, dona escrita!
Esses dias, rolando o Instagram, vi que uma pessoa, que é escritora e parece que se propõe a ajudar outras pessoas a escrever (algo assim dizia na sua bio), dizia que escrever, publicar e vender muitos livros “tal como Ana Suy”, era a realização de um sonho. Levei um susto, eu meio que sou essa Ana Suy e é verdade, se eu achasse que seria possível isso, eu teria sonhado com isso! Mas o fato é que eu nunca sonhei com isso porque a gente só sonha com as coisas que parecem, em alguma medida possíveis, ainda que muito distantes. Eu nunca imaginei que escrever pudesse se tornar um trabalho. Aliás, esses dias uma marca famosa que eu gosto me contratou para uma campanha de dia dos namorados, acreditam? Me pagaram para escrever! Mas a escrita que me pagam para fazer não é a escrita que faço aqui, embora alguns de vocês, como eu disse, até coloquem algum dinheiro nisso. A escrita daqui é como se fosse o fio que me conecta com alguma coisa de um vazio meu.
Sempre fico espantada que as pessoas liguem o vazio e a solidão a experiências tão sofridas. Tenho tão boa relação com isso! É claro que tenho noção dos meus tantos de privilégios e da qualidade dos laços amorosos que me fizeram e me fazem – que são o que possibilitam quem eu tenha essas boas experiências comigo mesmo, as quais chamo de vazio e solidão. Mas isso não elimina o meu espanto diante da posição tão carente de tantos de nós. Fico sempre com medo de dizer isso e no dia seguinte tudo ruir. E não é que eu acredite em olho gordo, mas é porque tenho alguma noção do quão frágil é a boa experiencia de sermos a gente “mesmo.” Além disso, me preocupa parecer soberba, olha lá ela, que inteirona, não precisa de ninguém. Não sou. Pelo contrário, considero minha existência tão mirradinha., tão miserável (me preocupa também me mal dizer, talvez minha mãe e meu pai se chateassem com isso) que pouco acredito que alguém possa me salvar disso. Mas me alegra desfrutar da minha pequeneza diante de um tanto de outras pessoas.
Acho graça dessa história de ser uma “escritora famosa”, me divirto com isso, me delicio com isso. Mas também desconfio. De repente eu pisco e nada passou de um texto que pude escrever.
Rio Guaíba, em Porto Alegre
Notícias do meu trabalho, enfim!
• O amarelinho está à venda nas livrarias e na Amazon numa edição luxo para comemorar 200.000 cópias vendidas! Tem capa dura e um monte de paranauê chique na edição. É uma edição limitada, então se você gosta muito desse livro, vale a pena o investimento. <3
• Começou a pré-venda e já já chega nas livrarias o livro que fiz com ninguém mais ninguém menos do que Christian Dunker. Se chama “Eu só existo no olhar do outro?” e tá lindo demais nossa conversa sobre olhar, existência e amor, é claro.
• Na semana que vem, dia 31 de maio, estarei no evento “Fronteiras do pensamento” junto com o Christian. É um eventão que faz parte desse rolê de ser uma escritora que está realizando um sonho que sequer tinha, mas se tivesse ia querer realizar isso, sim.
• Semana passada gravei um episódio do podcast “Mil e uma tretas” com Thaila Ayala, Julia Faria e Mel Fronck. Não sei quando vai ao ar, mas mando o link aqui pra vocês!
• Dia 22 de junho estarei na programação oficial da Bienal do Rio de Janeiro!
• Estou aqui pensando já nos estudos para o segundo semestre, tanto do lendo Freud hoje quanto do Clube de Palavras. Quem tiver sugestão, me manda 😉
Obrigada, gente, por servirem de fio conector com minha escrita, até a próxima!


acho lindo ver como "pessoas como você" (com livros publicados e um tanto famosos) passam por processos tão "gente como a gente" - com bloqueios de escrita e se impedindo de forçar algo que deve ser natural e com propósito 🤎 escrever sobre escrita é sempre produtivo hahaha adoro te ler!
As vezes eu fujo de ler coisas da Ana, porque toda vez que leio, algo em mim se revira de tal forma.. me falta palavras, me falta ate ar a vezes… obrigada Ana por dividir com a gente seus escritos